Monday, December 21, 2009

Samba do Avião.

(reedit Lide Temerária)

Não gosto de fazer voô doméstico aqui no Brasil. Chamem de frescura, cabotinismo, viadagem, não dou a mínima. Morro de medo mesmo, os aviões não têm a manutenção adequada e as empresas sugam o sangue das tripulações, que cansam de viajarem exaustas - e isso não é trocadilho. Faço Rio-Lisboa pela TAP rindo , já peguei Lufthansa, Air France, British Airways e só faltava babar de dormir. Agora, aqui no Brasil, só de ônibus, porque já descobri que aqui nessa bagaça não tem trem.

Como fiz essa descoberta genial?

Tendo que ir à Brasília, lógico. Quando soube que iria de avião, já comecei a considerar outras opções: busão foi imediatamente descartada, tinha que trabalhar na sexta. Carro, estava arriscado eu sair do Rio e chegar à Cochabamba, mas jamais ao Distrito Federal. Ora! Se não dá pra ir de carro, não dá pra ir de ônibus... Vamos de trem, é óbvio!


Meu marido me olhou como se olha pra alguém que perdeu completamente o juízo. -Mô, aqui não tem trem. Como assim, não tem trem? Que diabo de país é esse que não tem malha ferroviária, lógico que tem, se existe a Central, É ÓBVIO que tem trem!
-Mô, o trem da Central mal chega a Japeri.
Peraperapópará! Tem trem pra São Paulo que eu sei! Tinha, ele me explica. Não tem mais. E eu já com dor de cabeça, tentando entender como um país enorme como o nosso não tem trem PRA PORRA DE LUGAR NENHUM!

Gente, se você meter na tua cabeça que vai sair de Lisboa e vai pra Moscou, você vai de baldeação em baldeação mas CHEGA LÁ DE TREM! Demora pra caralho, você tem um monte de estação pra descer e procurar conexão, mas SE CONSEGUE! Logra-se êxito! Tem opção! Aqui no Patropi ou você se arrisca numas estradas que D´us me livre ou tem que voar. Pô, mas e quem não gosta de voar, não quer, teve um pressentimento, não tá a fim? Foda-se, vai voando e problema teu, morra!

Eu dei uma de muito corajosa até a salinha de embarque. Quando abriu o portão, comecei a ver aquela gente alegre, conversando e lembrei de todos os filmes de desgraça em avião que já tinha visto na vida - já viram como começam com gente feliz se despedindo? Mal sabem eles, né?

Lógico, o pânico aumentou quando me deu conta que chovia canivete lá fora. Não só canivete como daqueles reluzentes, porque cada raio que estourava fazia tremer os vidros. e alumiava tudo. Fui me esgueirando pelas paredes, agarrada no braço do marido e juro que tentei fazer uma saída pela esquerda, prontamente evitada pelo meu digno. Entrei na geringonça voadora.

Pra quê? Arregalei um olho maior que a cara e soltei um gemido. A aeromoça me perguntou se tava tudo bem. Devo ter olhado pra ela de um jeito que deixava bem claro que BEM era a última coisa que eu estava e que era bom ficar de olho em mim ou eu espalharia o pânico por aquele avião. Olhei pro corredor, mais gente feliz, mais famílias, mais tudo com cara de Aeroporto 77, Voô Noturno, Serpentes a Bordo, etc. Sentei, porque não tinha jeito, mas agarrada na sacolinha onde tinha biscoito, chá verde e outras bossas, porque tinham me avisado que a comida não era igual a da TAP. Me fizeram guardar tudo. Ódio. Minha sacolinha me dava segurança.

Ficamos parados séculos. Na cadeira perto da minha, um senhor que com certeza foi aluno de Santos Dumont e tinha mais horas de voô que avião velho da American , que lia jornal, como quem estivesse em casa e eu numa merda de dar gosto. Guarde isso do coroa porque é informação relevante.

O comandante fala que vamos trocar de lado na cabeceira. Trovejava, relampejava e eu estava quase sugerindo que fóssemos daquele jeito mesmo, com as rodinhas no chão, até Bsb. Fiquei quieta e me limitei a rezar. Rezei tanto que sabe-se lá quem me ouviu e o piloto avisou que íamos sair do chão.

PUTA QUE PARIU! Niqui o troço levantou, ele desceu. Sacudia mais que cavalo recebendo exu tranca rua e cigana juntos. Um silêncio do cacete na aeronave e nem o aluno de Dumont dava um pio, o que era péssimo sinal. O treco deu uma estabilizada, a tempestade rugindo lá fora e de repente se escuta um crec e tudo fica clarinho, clarinho - um raio tinha atingido a gente. Lógico, começamos a perder altura e meu marido apertou minha mão, o que também era péssimo sinal, já que ele está mais que acostumado a voar. Inferno! Comecei a chorar baixinho, nariz escorrendo, miserê total.

Dei graças aos céus por ter deixado minha partilha com minha prima, tudo ajeitadinho, porque aí não ia ter problema nem confusão. Fiz as pazes com D´us, comecei a rezar o shemá e estava evitando o kaddish, mas na hora em que o bicho embicou de nariz mais uma vez as três primeiras palavras foram inevitáveis Yitgaddal v'yitqaddash sh'meh rabba... e estava tudo indo pras calendas hebraicas. Lamentei só não ter deixado a carta-vai-tomar-no-cú-bando-de-pilantra-chupim que eu tinha escrito, mas como confio na justiça divina, relaxei porque se encontrasse com D´us ou com o Capiroto, estaria bem perto pra pedir providências imediatas e fulminantes.

Foi uma meia hora de silêncio, sacode, brilha, explode, faz vuuuuuuuuuuuuuuuuuuum, desce, de bico, sobe, faz vuuuuuuuuuuuuuuuuuuum, desce na horizontal, sobe, sacode, sacode, brilha. Uma hora parou e resolveram servir o lanche. Eu estava tão transida que me agarrava no sanduba e comia aos bocadinhos, que nem criança que vai almoçar depois de tomar surra da mãe. Acabei de comer e vi o bolinho suíço. Comi com gosto e comecei a ter aquela sensação gostosa de rabo cheio de açúcar. Chamei a moça:

- Moça, posso ter mais um bolinho?
- Quantos você quer?
- Só um, só.
- Tá, já venho.

Em dois minutos, ela aparece com DOIS BOLINHOS, que comi feliz da vida, lambendo o açúcar e roendo as partes com chocolate. Fiquei tão feliz e relaxada que quase dormi, mas acho que não ia dar tempo: o comandante avisava que estávamos chegando a Bsb. Olhei pela janelinha - sim, eu estava na porta de emergência, bem na janela - e só tinha luz lá embaixo. Lógico que olhei porqu estava bêbada de açúcar. Em dois segundos, o treco deu outra jogadinha, eu me pus no meu lugar de ser apavorado e voltei a rezar.

Pousamos. Saímos o treco, agradeci muito à moça dos bolinhos - acho que não sincopei por causa deles - e resolvemos perguntar pro homem do 14 Bis onde era a esteira das malas. Informação dada, ele comenta:
- Este foi um vôo difícil.

Demonhos! Se um cara que nem ele diz isso é porque devia estar morto de medo ! Quando velho rodado diz que foi difícil é por que ele não se cagou por conta do supositório que colocou antes de sair de casa! O colega dele, que por sinal era a cara do Leão Leôncio, estava com os bigodes em petição de miséria, me pareceu até que tinha pedaço faltando. Pegamos nossas malas, agradecemos e lá fomos nós.

Como eu estava? Ah, tava ótima: cabelo em pé, olhos inchados e a gola da camisa DURA de tanto em assoar nela. E agarrada no farnelzinho, claro!

Da próxima vez que for a Bsb, vou acampar na porta do hômi e pedir pra colocarem trem. Assim não é possível! Entendo quem voa por gosto, quem voa por pressa, mas por falta de opção... é sacanagem!

2 comments:

Mytho said...

heheheh eu lembro desse post! Muito bom relê-lo!

=***

olhodopombo said...

mas outro dia foi um avião da air france que caiu bem na costa brasileira....